quarta-feira, 15 de novembro de 2017

soccer box ou futebol da palhinha

desde que a D entrou no Jardim de Infância,  todos os anos há o Projeto Famílias.  é  alguma coisa que faz os pais interagirem com a escola. no primeiro ano fizemos fantoches e fomos contar a história. no segundo ano foi uma experiencia científica. agora ja com o S, é a vez de construir um jogo!
o plano é simples: fazer um jogo, experimenta-lo em família e levá-lo para a escola.
por outras palavras: primeiro vi uma ideia gira no Pinterest, a seguir recolhi os materiais, comecei o projeto e até parece que vai ficar engraçado mas passado dois minutos já estou a dizer mal da vida e a questionar porque não escolhi o jogo do lenço (!) entretanto ganho força e tudo fica acabado. parece giro, mas quando nos reunimos os quatro para o testar, é que confirmo que valeu mesmo a pena, todos nos divertimos e o maridāo diz que temos de arranjar jogos para quatro :)
MATERIAL:
. caixa de pizza
. lápis régua e compasso (para as linhas)
. tintas (usei acrilica e caneta branca)
. washi tape (para fazer as balizas)
. decoração lateral (usei autocolante de bonecada para plateia, se fossem mais velhos fica giro colar as marcas patrocinadoras do clube dos miúdos)
. palhinhas
. bola pequena e leve (pode ser um pequeno pompom ou uma bolinha de algodão)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

o quarto dos Bichinhos

regressei a casa depois da cirurgia na quinta feira e até domingo estivemos sem os nossos filhos cá em casa. sei que fisicamente foi o melhor para mim, mas custou duma forma que não sei comparar.

o quarto deles chamou-me várias vezes (e eu não acredito que as coisas tenham voz). dei por mim em pé, muitas vezes, no quarto deles a olhar.

um desses dias descobri a razão: não estava ali à procura de recordações ou cheiros, não estava a imagina-los novamente a brincar, não. estava a confirmar que tê-los naqueles dias longe de mim, era uma questão de sobrevivência e de amor, do meu amor por eles, o qual não devo colocar em causa como habitual.

e num desses dias em que estava ali em pé descobri que o quarto dos meus filhos é, indiscutivelmente, o local do nosso lar onde cada canto transborda de amor. pode não se gostar do estilo, das cores, do espaço, mas nesse dia tive certeza que ali está amor.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

agrafos free :)

no segundo dia após a operação, à conversa com um enfermeiro:
- vou mudar o penso para ver os agrafos.
- quais agrafos? não são os mesmos pontos de parto que saiem sozinhos?

nesse momento caiu-me a ficha.. teria de tirar os agrafos. nesse momento já tinha total consciência de que tinha um dreno em mim (chamei-o "pochete" desde que fui apresentada) e que ele iria sair.

eu que faço das perguntas mais chatas e às vezes inconsequentes ou até mesmo impróprias, não fiz quase perguntas sobre o pós operatório e abençoada ignorância!

o bom é que não foi dificil tirar a pochete, nem os agrafos, mesmo!

sabem que o meu número da sorte sempre foi 18? tive dezoito agrafos :)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

simple things

coisas pequenas e simples, aleatórias, que têm um gosto especial quando se está de baixa em pós operatório duma operação à coluna, partindo das premissas que não me posso baixar ou dobrar:
. pôr loiça máquina- tudo o que é para a prateleira de baixo, é o A que pôe, mas os talheres parece-me que é demais deixar para ele... confesso, não estou habituada a que façam coisas por mim! então, com a prateleira de baixo toda para dentro porque não a consigo puxar, atiro o talher para o cesto (já vos contei que dividimos os talheres no cesto da máquina? tudo a aumentar o grau de dificuldade). a maioria das vezes o talher não fica em nenhuma das divisões do cesto, cai para o fundo da máquina, e é o A que tem depois de o apanhar.
. virar-me na cama - claro que felizmente vai melhorando..
. ver séries numa cadeira rija - as séries não vêm com um sofá e mantinha? como é que se consegue ver e se necessário chorar, quando estamos a ver uma série com o rabo dorido numa cadeira dura?
. ir à casa de banho: se baixarmo-nos para sentar dói, se fazer uma força (aparentemente mínima) para o xixi sair dói, se levantar dói... imaginem o resto!
. espirrar - esta, até agora, está no topo! não é top 5 ou 3, é mesmo O TOPO. começamos com aquela comichão e ardor na cana do nariz, se espirro dói, se travo o espirro vem mais dois ou três de seguida, mas no milésimo de segundo deste pensamento, atrasei-me e o espirro está prestes a sair, ainda o tento travar ao mesmo tempo que me agarro a qualquer coisa que seja que me ajude a estabilizar os ossos para o que aí vem. aquela zona lombar, entre o rabo e os pulmões, aquela onde eu fui operada, afasta-se e junta-se, a dor é aguda e forte, ataca os rins, os músculos verticais ao lado da coluna, aqueles que foram mexidos na operação e que mal consigo tocar, gritam de dor e ficam vários minutos a latejar, como se tivesse soluços, cada soluço sua dor. e finalmente os agrafos lembram-me que existem, que estão lá, que ainda vou ter de passar pelo momento de os tirar, o espirro vem e a pele estica, fazendo lembrar plasticina velha com um prego ferrugento lá no meio, porcausa dos espirros e dos agrafos, pelo sim pelo não ontem fui à Clínica aqui perto, pedir à enfermeira que me mudasse o penso para ver se algum ponto estava inflamado. não estava (graças a Deus), é só a pele e a carne a esticar a cada espirro junto de um arame dobrado de ferro.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

sem vos ter aqui

passa das onze da noite, entro no quarto dos meus filhos. os estores estão abertos, sinto o quarto frio sem a vossa respiração. tenho medo de vos ter cá e não ser capaz de fazer algo se se aleijarem ou se me aleijarem. tenho saudades enormes e sentimentos de culpa estúpidos por não poderem estar aqui. hoje quando viemos do hospital passámos pela casa da minha mãe para vos ver. o vosso olhar quando me viram!!!!! as vossas mãos a darem-me "abraços de cara" que são aqueles em que as mãos apertam as bochechas com força e os beijinhos são dados quase ao pé dos lábios. o vosso calor e cheiro.
a D percebeu porque não veio, ficou triste. o S não percebeu porque não veio, senti-o confuso e triste.
consegui não chorar à frente deles, e agora passeio pelo quarto deles na esperança que já tenham passado mais dias e eles já estejam ali a dormir no nosso ninho.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

done it!

aconteceu. está feito. e segundo a minha mente, quando o segundo dia passa, o pior já passou. fui operada à coluna!

o A subiu comigo para o andar da operação, quando já não me podia acompanhar, acho que me deu um beijo. continuaram a levar a minha maca e eu sorri-lhe e acenei. como estava sem óculos e sem lentes, não sei qual foi a reação.
já me tinha dito muitas vezes que ia tudo correr bem.
já lhe tinha dito muitas vezes que ia tudo correr bem.
e assim, apesar dos nervos, mas certa de que ia tudo correr bem e certa de que ele não queria falar das maiores maluqueiras que as minhas que lhe passavam pela cabeça, apenas pude oferecer o meu melhor sorriso ao meu marido.

lembro-me duma enfermeira nova (pela voz, porque continuava sem ver nada) muito simpática a pôr-me o cateter muito suavemente, muitas conversas sobre turnos e trocas de colegas, um doutor espanhol que ia de seguida buscar a filha para a levar a Paris, da dra Joana anestesista, de desviarem várias vezes a minha maca para verem bem o quadro dos turnos e operações (estes gajos deviam ver a Anatomia de Grey para umas ideias mais práticas). lembro-me de todos muito simpáticos a brincarem uns com os outros - foi claramente o intervalo entre cirurgias onde precisavam de desanuviar em grande! lembro-me de pensar que, se me dessem na altura a anestesia, seria sem eu dar por isso, mas de forma muito pacífica.
veio um assistente do dr, também cirurgião, e também assistente do dr no hospital público onde me começou a seguir. apresentou-se, Pedro... com alguma barba, moreno, com uma senhora voz.. claro que eu ... não o consegui ver! ele viu exames, confirmou os sítios onde eu tenho mais dores, pediu desculpa por estarem sempre a confirmar as mesmas coisas..
eu disse: não se preocupe, eu percebo. não leve é a mal se eu o vir na rua e não o cumprimentar, porque sem lentes não vejo nada!
(!!!!!!!!!!!)
[já disse que por esta altura já me tinham dado um calmante há pelo menos uma ou duas horas? acho que se nota]
a seguir entrei na sala de operações, ouvi o meu neurocirurgião a dizer-me para me encostar à beira da marquesa, junto à outra marquesa que tinha dois "rolos" gigantes.
Dr.: É silicone, pode tocar.
Eu: podia ter dito que teria silicone, para lhe pedir para me fazer outras coisas também.
Dr.: Ah, sim? Como o quê?
..e não me lembro de mais nada.
adormeci calmamente e sem aquele nervosismo dos últimos segundos antes de sentirmos a anestesia, e foi bom assim.

dei por mim a tremer, alguém viu e pôs um aquecedor forte entre os cobertores. acordei com aquele quente, muito calmamente e a primeira coisa que fiz foi tentar mexer os dedos dos pés: CONSIGO e SINTO-OS! pouco depois estava a ouvir a voz do A em lágrimas! ele tinha que se ir embora o que me fez saber que a operação tinha demorado muito mais do que o esperado.

na terça tomei duche (abençoado) mas tive grande parte do dia a acordar e adormecer. o A esteve pouco tempo comigo porque parecia pior que eu (homens). o dr disse que me podia ir embora mas disse-lhe que preferia ficar mais um dia.
na quarta um enfermeiro experimentou o primeiro levante - considerando que já tinha tomado duche e ido várias vezes fazer xixi, não sei o que ele quis dizer. passado poucos minutos comecei a ficar muito mal disposta, quase com vomitos e toda a suar estupidamente, a tremer. estava ao telefone com uma amiga e para não a assustar, disse que estavam a bater à porta e desliguei enquanto tocava no botão - a quebra de tensão é muito habitual no pós operatório.
conforme me deitei, perguntei se podia fechar os olhos e adormeci logo.
poucas horas depois chegou o A, depois o almoço, depois a senhora Ana que faz visitas para companhia há mais de trinta anos - algo tão importante e simples que nos esquecemos!
o enfermeiro de Reguengos de Monsaraz tirou o dreno e depois o cateter do pulso e foi muito menos doloroso do esperado. fiquei umas horas sem qualquer medicação e estou viva, sem me contorcer de dores. decidi ficar mais uma noite, não propriamente por me sentir num hotel, mas porque amanhã estarei muito melhor.
os Bichinhos estão bem, tenho falado com eles todos os dias. mas não quero muito falar com ninguém sobre eles.
e a vista do meu quarto é, obviamente, de uma Princesa!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

what if,!

as questões (só algumas) que estão presentes antes duma operação:
. porque não podemos ter apenas um assunto stressante de cada vez?
. e se eu pertenço à minúscula percentagem de pessoas que morre na sala de operações por motivos que nada têm a ver com a operação? (uma bactéria, uma alergia ou infeção desconhecida, uma cena estupidamente minúscula que ninguém viu)
. e se ninguém se lembra que ela precisa de atenção e de ter o seu próprio tempo sozinha, de mimos e liberdade, de falar as suas histórias como se fossem a mais pura verdade enquanto respondemos como se não o percebessemos? de ser lembrada que a perfeição não é necessária em nenhum momento da nossa vida, que temos direito de perseguir os nossos sonhos, que ela é linda do coração (mas por acaso por fora também) e que as suas verdadeiras pessoas saberão isso? que é das pessoas mais fortes que conheço, que precisa saber que ela é preciosa e deve encontrar pessoas merecedoras da sua presença. que não tem de agradar aos outros. que não é preciso ser sempre forte e que o mano tem pais, que a função dela é ser criança e não se preocupar com nada?
. e se ninguém se lembra que ele precisa de travões constantes mas que lhe digam isso como se a ideia fosse dele? que se precisa também focar nas consequências e não apenas no agora. que é lindo e maravilhoso especialmente no coração (e por acaso por fora também) e que tem de deixar de dizer que é tonto e parvo para se desculpar das ações menos boas, mas mesmo com estas, e se ninguém se lembra de dizer que ele é amado incondicionalmente e se a seguir ele diz que não sabe o que é "amor", lembrar que é gostar muito e sempre? e se não lhe dizem que é muito mais inteligente do que quer mostrar?
. e se ninguém te lembra que não podes desistir mesmo que eu não esteja? em primeiro lugar por ti mesmo e, se isso não for suficiente, pelos nossos Bichinhos. que tens de viver e não apenas sobreviver. que tens e temos sonhos que podes construir e vivê-los mesmo sem mim?
. e se para o outro assunto stressante é preciso mais do que acompanhar e eu, por estar a recuperar, não posso ir fazer exames a apertar-lhe a mão? dizer-lhe parvoíces para sorrir? inventar qualquer realidade do tipo "A vida é bela" para não saber o que se passa?
. e se a operação corre bem a nível de bactérias e alergias mortíferas mas eu fico com mais dores, coxa, mais coxa e mais torta, ou sem conseguir mexer os pés para sempre? e se não conseguir ser feliz assim?
. e se me vou embora e não tive tantas conversas que quereria ter tido?
. e se corre tudo bem e as dores iniciais são insuportáveis?
. se faço um disparate qualquer só para fugir da operação?
. se, por estar com um super senhor herpes ou por hoje ter andado à chuva, fico doente me adiam a operação?
. e se... só de pensar em demasia fico maluquinha?

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